
Porque existimos
Olá, me chamo Rodrigo. Sou natural de Santa Maria do Pará, eu tinha apenas dois anos quando cheguei a São Paulo nos braços dos meus avós, movido pelo sonho de um futuro melhor.
Ao chegar, nossa trajetória tomou o rumo oposto ao planejado. Aos cinco anos, vivi meu primeiro despejo. Nos anos 2000, minha família precisou recomeçar a vida em um barraco no Inácio Monteiro, na Cidade Tiradentes, um bairro marcado pela violência, pelo preconceito e pela ausência de direitos básicos.
O meu pilar sempre foi o amor da minha família: meus primos-irmãos, meus avós e minha tia (minha mãe de criação), que convive com uma deficiência motora desde a infância. Em 28 de Julho de 2008, aos 13 anos, vi nosso barraco ser derrubado. Sem teto, fomos acolhidos no galpão abandonado de uma loja. A partir daquela perda, a revolta que eu carregava foi ficando pior, mas, com ela, também nasceu uma promessa.
Em 2014, conheci a arte no projeto Fábricas de Cultura. Logo no meu primeiro dia, fui buscar crianças em uma comunidade vizinha. Ao entrar ali, senti um aperto no peito até que uma menininha loira de olhos azuis, descalça, correu, agarrou a minha perna e perguntou: "Tio, você vai me levar pra Fábrica?". Chorei naquele instante. Eu me vi naquela criança; lembrei de quando esperava por alguém que me trouxesse algo de bom, mas esse alguém nunca apareceu.
Naquele dia, entendi minha missão e prometi que um dia levaria o "Algo bom“ para lugares como aquele. Eu ainda não sabia como, nem sabia o que era, mas sabia que cumpriria.
Em 2017, passei a trabalhar no Centro Cultural Tiradentes. Mais maduro, passei a revisar espontaneamente os projetos que chegavam por e-mail para que conseguissem apoio financeiro. Graças a essas revisões, mais de 60 iniciativas obtiveram recursos. Porém, ao tentar orientar sobre pontualidade, qualidade e acolhimento, percebi que ninguém estava realmente preocupado com o atendimento humanizado às crianças, o foco era apenas o dinheiro.
Em 2020, fui demitido. Sem um plano formal, reuni todas as correções que havia acumulado e decidi criar algo do zero. Eu tinha apenas três certezas: o propósito, o nome e a cor.
O azul é a cor dos olhos da minha avó e da garotinha descalça; a cor do meu primeiro bolo de aniversário, do meu primeiro uniforme nas Fábricas de Cultura e do lugar onde eu sonhava trabalhar: a UNICEF. O azul sempre foi minha escolha inegociável. Ninguém me faria mudar de ideia, mesmo quando diziam que "coisa de criança precisa ser colorida" ou questionavam como eu encontraria tudo nessa tonalidade. Eu acreditava fielmente que essa cor se tornaria a marca registrada da minha trajetória, porque ela carregava muitos significados pra mim.
Em 10 de outubro de 2022, realizei meu primeiro evento colocando em prática todas as melhorias que havia mapeado, agora com identidade visual própria na cor que todos gravariam na memória. Foi lindo, mais de 1.300 crianças foram atendidas na estreia.
O azul é o que me reconecta e leva inclusão a crianças que crescem invisíveis, como eu fui. O projeto nasceu para estar onde ninguém quer ir. Desde criança, eu procurava alguém que me salvasse daquela situação, até entender o que minha avó me disse um dia: quando não encontramos quem nos salve de uma situação e não encontramos, essa pessoa somos nós mesmos. Desde então eu tenho sido.
Hoje, o Voltando a Ser Criança é uma marca social registrada. Já realizamos mais de 80 eventos, atendemos mais de 60 mil crianças e percorremos mais de 90 bairros com a mesma realidade do lugar onde cresci. Contamos com estrutura própria e logística integrada, incluindo loja online e linha de produtos oficiais.
Em abril de 2026, demos mais um grande passo ao lançar o #TimeDasCrianças, nosso programa de extensão para voluntários. Unimos jovens universitários movidos pelo propósito de vivenciar na prática o que livro nenhum é capaz de ensinar: a arte de enxergar, o ato de incluir e a missão de exercer o dom recebido para servir a quem mais precisa.
Rodrigo Vevé | Fundador
